sexta-feira, 16 de setembro de 2011

(RE)CANTOS DA IRACEMA

Meu amigo Danilo Ribeiro, ao enviar-me uma mensagem pelo Facebook, juntou imagens do Recanto da Iracema, projeto por ele idealizado e concretizado, e cujo nome é uma homenagem a Iracema de Sousa Brito, saudosa moradora do Transwal.

Tomar ciência da homenagem muito me sensibilizou, porque Iracema, ou Irá – como eu a chamava, era grande amiga minha, no âmbito de uma relação em que se incluíam mútuas e costumeiras visitas entre nós. Além disso, Irá integrava, no Transwal, com “Seu” Augusto, Chico Tamarino, Antonio, Zacarias (estes dois irmãos de Julimar Barros e Diouro) e outros, o grupo que me acompanhava e me apoiava, nos tempos em que eu militava na política pedreirense.

Mas quero falar aqui da mulher humilde, trabalhadeira, alegre, caridosa, afetuosa, e que, a despeito ter recebido pouca instrução escolar, possuía algo especial que lhe permitia exteriorizar a poesia que sua alma enxergava na vida, por meio de quadrinhas bem elaboradas, nas quais a singeleza do dizer em verso emprestava leveza e graça lírica à expressão de sentimentos grandes e fortes.

Sua produção poética deve ter alcançado uma centena de poemas. Mas a maior parte se perdeu, pois os cadernos que continham os manuscritos, segundo se sabe, foram queimados, depois de sua morte, juntamente com outros pertences que ela deixara guardados, em casa de Isolete Camelo.

O confrade Samuel Barrêto conseguiu resgatar os textos de alguns poemas de Iracema e gentilmente mos enviou, para que eu juntasse àqueles de que eu dispunha e desse público conhecimento deles.

Dos que adiante vou transcrever, os dois primeiros fazem referência – com títulos iguais – a poemas e ao folheto de minha autoria, que ela teve oportunidade de ler, num exemplar que lhe emprestara meu primo Beto Cantanhede (falecido), quando este ainda comandava o programa de Rádio Saudade não tem Idade.    


                    PALAVRAS
                          
                                   Kleber Lago

Nos corações em que busquei amor
ódio encontrei,
as mãos de que esperei carinhos
maus-tratos me deram,
os sábios a quem pedi verdades
mentiras me ensinaram.

Tenho o coração cheio de amor
para quem me odiou,
as mãos cheias de carinhos
para quem me maltratou
e a alma cheia de verdades
para quem me ensinou mentiras.

                (Palavras / Um Pouco de Cada Momento)

               PALAVRAS
Iracema de Sousa Brito

Palavras traduzem encanto,
Quer escritas, quer faladas.
Enxugam as marcas de pranto
Pelas saudades deixadas.

De Kleber, que sendo “Lago”
Tem muito mesmo é de rio,
Tive em mim, como um afago,
“Palavras” correndo a fio.

Como foi maravilhoso
Viajar além de mim!
Num sonho lindo e gostoso
Voei que nem querubim!

Palavras de boas lavras
De uma pessoa dileta!...
Quanto mais leio “Palavras”,
Mais eu amo este poeta.




                    O SONHO DO ZÉ
                          
                                   Kleber Lago

Trabalhador rural, batizado
com duplo nome de mártires
- PEDRO-PAULO.
Conhecido por apelido
de gente sem importância:
- ZÉ.

Mas camponês também sonha...
Zé sonhou que seria dono de terra:
uma terra pequenina,
do tamanho do seu sonho
que não ia muito além
de quatro linhas de roça.

Zé encontrou “sua” terra,
tomou posse em seu nome
(ou em seu apelido),
limpou tudo,
fez a cerca,
ergueu a palhoça,
transferiu a família
e encheu o chão de sementes.

Triste colheita a do Zé:
um balaço na cabeça,
uma viúva,
três órfãos
e sete palmos de terra
sobre o corpo e sobre o sonho.

                (Palavras / Um Pouco de Cada Momento)
               O SONHO DO ZÉ

Iracema de Sousa Brito



No meu “latifúndio” tem
Amor, partilha e paixão.
A esta morada quem vem
Encontra muita canção.

Que triste fim teve o “Zé”
Que o meu poeta cantou,
E cujo sonho de fé
Na terra se sepultou.

Quantos “Zés” sonham seus sonhos
Do que nunca eles vão ter,
Pois poderosos medonhos
Fazem tudo esvaecer!

Eu aqui vou consumindo
Uma vida de humildade,
Querendo, num sonho lindo,
Para o povo a igualdade.







        MORADA DA CHIQUINHA
                          
 Iracema de Sousa Brito

Entre a Cotovelo e a Salvação,
Reside a amiga Chiquinha.
Numa casa bem singela,
La no alto ela se aninha.

Ali a paz sempre reina.
Morada que me faz bem!
Café com bolacha e doce
Serve, sem olhar a quem.

Eu não sei o que o progresso
Vai fazer daquele canto,
Quando a Chiquinha se for,
Deixando saudade e pranto.

Ontem mesmo estive lá,
Em conversa prazenteira.
Voltei para o meu Transwal
Com lembrança na algibeira.
                 O GALO

Iracema de Sousa Brito

Que queria mais o galo
Depois de tudo o que fez?
Só escutei um estalo.
Era a galinha pedrês!

Correu, correu, mas cansou...
E ele, com fome voraz,
Da pobre se aproveitou,
Soltando o seu canto audaz.

Amor é coisa tão boa
Quando há consentimento.
Se for forçado, magoa
A ternura do momento.

Seja no Sul ou no Norte,
Se a mulher quer liberdade,
Terá que soltar bem forte,
Seu grito pela igualdade!.




             AMIGOS
                          
 Iracema de Sousa Brito

Muitas vezes nesta vida
Eu recebo alguns castigos,
Mas sou sempre protegida
Pelo carinho de amigos.

Os amigos de verdade
A gente mesma conquista.
E eu, nesta minha humildade,
Deles já fiz boa lista.

            TROVINHAS
                      
                   Iracema de Sousa Brito

Palavras não reinvento.
Quero a intimidade delas
Para alcançar meu intento
De libertar as gazelas.

Se moça que está sozinha
Sonha o amado encontrar,
Dela também se avizinha
Um dos sonhos de embalar.

Um moço, com seu vigor,
Logo lhe promete um mundo
Cheio de ternura e amor,
Num galanteio profundo.

Nossa vida nunca é pura
Com mentira e traição.
O remédio para a cura
É verdade na atenção.

Eu, que aposto a toda hora
Na força da natureza,
Quero em trovinhas, agora,
Reinventar a beleza!
            JARDIM TRANSWAL



Iracema de Sousa Brito


No chão batido em que ando
No meu vai e vem de lida,
Quanta gente procurando
A sua história de vida!

Tenho imaginado a fundo
E muito me parte ao meio,
Enquanto um amor profundo
Em minha lira ponteio.

Por que esse andar de agora?
Por que promessa de mais?
Tenho pressa, vou embora...
Esta cantiga, jamais!

Todo pleito vem depressa,
Sofrendo e estendendo a mão.
Mas tudo aqui só regressa
Por essa estrada de chão!

Ó meu querido Transwal,
Que vive e que mora em mim,
És meu jardim natural,
Meu início, meio e fim!

Esqueça, pois eu já sei
Como não mais me iludir...
Palavra que não é lei
Não vai mais me confundir.


                  É lamentável que tenha restado muito pouco do que Iracema escreveu. Mas vamos nos conformar, imaginando que lá no céu também já haja um Cantinho da Iracema, onde ela, com seu jeito alegre, rodeada de santos, anjos e almas de pessoas conhecidas, esteja folheando seus cadernos e recitando aqueles poemas que não pudemos ouvir aqui, ao som das liras de querubins rechonchudos que voam por sobre sua cabeça iluminada.

                                                                                       Kleber Lago

6 comentários:

  1. Uma Beleza profunda, sem palavras.
    Chorei de emoção, Iracema era minha madrinha.

    Professora Goreth

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  2. Parabéns, meu poeta, por esta postagem. A revelação dos lindos versos de Iracema é um presente à terra onde vocês viveram e partilharam uma grande amizade.
    Cládia Arôso

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  3. Kleber , a despeito da singeleza e riqueza de sentimentos puros expressos nos poemas de ambos os poetas , o que me chamou a atenção foi surpresa da notícia de que o Beto é falecido . senti grande pesar.
    Um gde abraço.
    Irene Soares.

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  4. De seus poemas já li muito, dispensam comentários.
    Sua saudosa amiga Iracema só agora vim conhecer. Os poemas dela são simples, mas muito bonitos!
    Carlos Borges

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  5. Beleza poeta! Iracema é tudo... encanta dizendo coisa de jeito simples...
    Gracy Luna

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  6. oeta Kleber Lago, está sendo pra mim grande de valor e prazer visitar teu blog. Notadamente, porque ele versa a nossa intimidade com os nossos fazeres poéticos. Muito sabiamente trazes à lume uma poetisa que não conhecia. Coincidentemente, Iracema Brito leva meu sobronome o que muito me honra, embora tendo conhecimento de que talvez não sejamos da mesma árvore genealógica. Mas, a sua poesia é um canto de grito pela justiça social aos excluídos. Eles que vivem para a terra sem que a terra lhes seja por morada. Um forte abraço e saudades de Iracema pois a sua presença física não está mais entre nós. Mas, ficaram seus versos que ultrapassam os liames de nossa curta existência terrena.

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