quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

DA LAVRA DE 2015 - AGOSTO





Para ilustrar esta mostra de textos selecionados dos compostos em agosto de 2015, compartilho duas lindas fotos: uma de Pedreiras-MA, minha cidade natal, a eterna Princesa do Mearim; e a outra (arte de Fernando Sah) da bela São Luís, capital do Estado do Maranhão.

 
Pedreiras-MA - centro


São Luís-MA- Largo dos Amores

POETA

Vale a assertiva de que
ninguém sabe definir
precisamente um poeta,
nem desvendar os segredos
que ele carrega na alma.

É sensível, criativo
e capaz de transmutar-se
de acordo com o momento:
simplesmente indescritível
e de alma indecifrável!

O poeta está em si
enquanto faz leitura,
em texto original,
da poesia que o mundo
e a vida lhe revelam.

Mas quando ele verbaliza
essa mesma poesia,
então é que se transmuta
em quem procure encontrá-la
no contexto poemado.

Dentro de si, o poeta
é mistério imperscrutável;
transmutado em nós, assume
as formas das emoções
que consiga nos causar.
________

NOBRE RENÚNCIA

O amor que em nós se fez descontrolado,
louco, pecaminosos, proibido,
nem sequer haveria começado
se ao bom senso tivéssemos ouvido.

Aconteceu, foi bom!... Mas eu não pude,
ao te ver intranquila e deslocada
de ti mesma, evitar uma atitude
que de mim te tornasse liberada.

Renunciar ao teu amor, querida,
foi uma dor e, ao mesmo tempo, o ato
mais nobre que já pratiquei na vida.

Pois, mais que te deixar me desagrade,
agi assim só para que, de fato,
tu voltasses a ter tranquilidade.
_________

O TESTE

Se longe já sei manter
meu desejo controlado,
quero ver como vai ser
é de perto, lado a lado.

Preste atenção ao que digo
e, favor, não me conteste:
venha encontrar-se comigo
a fim de eu fazer um teste.

Penso em deixar a emoção
dentro dos padrões normais
a que o bom senso me obriga.

Tem de ser assim, senão
eu vou julgar-me incapaz
de tê-la só como amiga.
________

O ENCONTRO

Tal encontro não devia
nem mesmo ser programado,
pois, no fundo, eu já sabia
qual seria o resultado.

Surdos à voz da razão
quando ficamos a sós,
permitimos que a emoção
tomasse conta de nós.

Assim, no recanto antigo
fomos parar num instante,
longe dos olhos do povo...

E eu, que me fiz teu amigo
depois de ter sido amante,
sou teu amante de novo.
________

VIGÍLIA

Recosta a cabecinha no meu peito,
que sentes de um amigo em quem confias,
sem perceber que estás nas fantasias
dos poemas de amor que tenho feito.

Não me fales daquele amor desfeito,
seca ao calor de novas alegrias
as lágrimas que há pouco inda vertias,
dorme, e depois eu te porei no leito.

A noite passarei toda a teu lado,
de forma respeitosa, comportado,
olhos abertos, a velar por ti.

Mas cheio da esperança de que, quando
acordares, me abraces, declarando
que nunca mais queres sair daqui..
________

DO HOMEM CULTO E DO SÁBIO

Poeta dos mais serenos
que conheci (já saudoso)
emprestou-me um alfarrábio
em que li, grafado a mão,
um poema primoroso,
externando opinião
sobre o homem culto e o sábio,
nestes termos, mais ou menos:

- Homem culto é o que no estudo
procura aprender de tudo
quanto deseje aprender
para ficar convencido
de que consegue solver
as mais diversas questões.

Já o sábio, na verdade,
sempre cheio de humildade,
normalmente não precisa
fazer estudo ou pesquisa,
porque foi trazido à luz
complemente "aprendido",
pronto para dar lições,
a exemplo de Jesus!
________

O MAIS BELO POEMA

Deus, além de criador,
fez-se o mais perfeito esteta
nos atos da criação,
e tudo quanto criou
de estático e dinâmico,
marcou com toque divino
para gerar emoções
e sensações ante o Belo.

Mas só depois de criados
o firmamento, a terra,
os oceanos, os rios,
as plantas, os animais
e as forças provocadoras
das mutações naturais,
viu que era chegada a hora
de dar forma e vida a um ser
dotado de inteligência,
sentimento e razão,
capaz de perceber e traduzir,
em música, em imagem ou em palavras,
a magia que se encerra
nesse imenso conjunto de belezas
que Ele criara, também, na intenção
de mantê-la por fonte essencial
e eterna da Poesia.

Então decidiu criar o homem
à sua imagem e semelhança,
e este se multiplicou
em músicos, pintores, escultores,
artesãos e poetas,
entre outros que, por meio das Artes,
fazem refletir o encanto
da Divina Poesia.

E aquele que não pôde se tornar
artista, nada tem a lamentar
por sentir e não saber externar
toda essa Poesia,
pois é capaz de poemá-la para si,
simplesmente vivendo com prazer,
já que num contexto em que a vida
é o mais caro bem dos bens humanos
viver é a melhor forma de escrever
o mais belo de todos os poemas!
_______

O SONETO DA SEXTA

Mal a quinta termina, eu me prometo,
tal como em cumprimento de uma lei,
que ao vir o sol da sexta escreverei
novo poema em forma de soneto.

Na mesa já estão a meu dispor
a caneta e o papel. Se falta o tema,
isso não vai causar qualquer problema,
já que sobeja a inspiração do amor.

Até me sentiria satisfeito
se todas as semanas, nesse dia,
não me surgissem outros temas, pois

se acontecesse sempre desse jeito,
meu "soneto da sexta" só seria
para pôr em destaque o amor a dois.
________

AMOR DE POETA

Poeta a falar de amor
Sempre o faz com muito esmero
E tão intenso fervor
Que mais parece exagero.

Ouço que quem alardeia
Na hora de agir se entala...
Sorrio e, sem cara feia,
Explico a quem isso fala:

O poeta, em cada ato
De amor a sua parceira
Faz o que pensa.. E, de fato,

Ela sempre se completa
A cada nova maneira
Com que a ama o seu poeta.
________

CADÊ?...

Cadê a fantasia
do teu grande amor por mim
que prometia durar,
muito embora proibido?...

Cadê aquele botão
que não caiu da camisa,
mas procurei sob a cama
em que estavas tu deitada,
quando, joelhos no chão,
fui flagrado a te beijar?...

Cadê as mãos delicadas
que digitavam em meu peito
mil palavras de carinho
que só eu sabia ler?...

Cadê o cheiro de rosa
de teus cabelos compridos,
os quais punhas para cima
deixando o pescoço nu,
a fim de que eu te lambesse
o gosto de sal da nuca?...

Cadê os seios pequenos
cujos mamilos, tocados
por minha língua e meus lábios,
provocavam-te delírios?...

Cadê os beijos ardentes
que fundiam nossas bocas,
misturavam nossas línguas,
no diálogo silente
que antecedia os momentos
da mútua entrega carnal?...

Cadê as horas gostosas
e cheias de precaução
daquelas tardes de fuga
de nossas vidas normais?...

Cadê o nosso cantinho
tão secreto e aconchegante,
cujas paredes e espelhos
foram mudas testemunhas
das loucuras que vivemos,
sem preconceitos, na cama?...

Cadê o final feliz
da história do TU e EU
que teve um lindo começo,
mas nunca passou do meio?...
________

SOBRE AMIZADE

Gosto de preservar cada amizade
com lealdade, gentileza e apreço,
e quem me tome por amigo há de
saber que o sou bem mais do que pareço.

Dou destaque a poder me ter mantido
fiel aos meus modos de ser antigos
entre as razões de eu nunca haver perdido
o afeto da família e dos amigos.

E nada me provoca mais prazer
do que essa sensação de perceber
quanto é bom dar e receber amor,

com proteção e bênçãos do Senhor,
numa permuta de expressão sincera
que nunca acaba e não se degenera!
________

H A I C A I S

OLHOS

Só estão cobertos
no fim de agosto, os do rosto:
os da alma, abertos.
______

LOUVORES

Presto a cada amigo
dileto que amor e afeto
divide comigo.
______

CONVALESCENDO

Como uma criança,
não minto ao dizer que sinto
que repouso cansa.
______

REFLEXO

Um simples BOM DIA,
se vem de quem nos quer bem,
reflete alegria.
______

ANIVERSÁRIO

Enquanto tento esquecer
agulhadas de uma dor
que nos sorrisos disfarço,
com mais nitidez me lembro
dos momentos de prazer
de nossa história de amor,
que teve aurora em setembro
e ocaso no fim de março.

História que linda era
como a vida em florescência
por divina inspiração,
mas que, por nós termos dado
logo após a primavera
ouvidos à consciência,
teve o enredo arrastado
pelas águas do verão...

Se hoje me resta o consolo
de uma amizade até bela,
que compense o amor talvez,
ao olhar o calendário
choro um setembro sem bolo,
sem o amor soprando a vela
do primeiro aniversário,
que faria neste mês.
________

Abraços aos leitores! Obrigado e até a próxima postagem!

                                            Kleber Lago

© Kleber Cantanhede Lago



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

DA LAVRA DE 2015 - JULHO

(Imagem compartilhada do Google)



Seleção de poemas escritos em julho de 2015:

POR FORÇA DOS IMPULSOS

Vivem meus pensamentos em viagem
ao mundo imaginário e, imaginando,
eu crio tanto que de vez em quando
exponho-me a criar muita bobagem.

Pois, quando crio, meus impulsos agem
de forma que me tiram do comando
de tudo, minha ideia explicitando
diversa do que eu quis, noutra montagem.

Como a de nós ante ao portal celeste,
de onde São Pedro te mandou voltar
por tudo que de amor tu não me deste,

o que me fez lhe recusar o abrigo,
lançar-lhe um frio e desdenhoso olhar,
virar-lhe as costas e voltar contigo...
________

PARA SABER COMO É SER TRISTE

Tentei passar um mês sem fumar,
uma semana sem te procurar,
um dia sem fazer versos...

Foi tudo em vão,
e não busquei razões
nem para as minhas tentativas,
nem para os meus insucessos.

Hoje vou tentar
passar uma hora
sem me sentir alegre.

Mas, nesse caso,
sei muito bem o porquê
de minha tentativa,
e torço pelo meu sucesso.

Se o conseguir, terei finalmente
satisfeita a curiosidade
de saber como é ser triste.
________

MESMO SÓ PARA LEMBRAR

Eu sei que em todo momento
raro em que agora eu a vejo,
sente que ainda alimento
por você muito desejo.

Nesse desejo tão louco
que dentro de mim não morre,
vou morrendo pouco a pouco,
e você não me socorre!

Vamos dar uma ”fugida”
daquelas de antigamente,
mesmo só para lembrar

o quanto valeu na vida
o pouco tempo em que a gente
soube, de pleno, se amar.
________

AME

Ao notar que sensação
de amor em seu peito aporta,
deixe que o seu coração
venha logo abrir-lhe a porta.

Não sendo possível opor
à voz do amor resistência,
ame, com muito fervor,
sem peso na consciência!

Embora o faça em segredo,
dê-se ao que quer, sem ter medo
e sem pensar em “mais tarde”.

Maior que o motivo seja,
negar-se ao que se deseja
é coisa de alma covarde.
________

BOM DIA

Por razões óbvias,
resisto à tentação
de dar-te um telefonema
ou de mandar-te uma mensagem
sob forma de trovinha.

Mas por amar-te demais
e só te querer o bem,
não consigo deixar de atender
ao apelo que me faz o coração,
para não permitir que chegue a manhã,
sem te enviar um - BOM DIA!

Não te esforces para entender,
pois isso exigiria de ti
que aprendesses primeiro
que o amor de verdade
não se sepulta junto
com a relação desfeita.
________

(Imagem compartilhada de Pedras Verdes) 


SEMPRE DESSE JEITO

Mal chego a minha terra, eu me abandono
ao prazer de viver cada emoção
até a hora de entregar-me ao sono
numa rede macia de algodão.

E quando de manhã escuto o sino
da Matriz, a saudade me balança
e me desperta dentro do menino
que carrego comigo na lembrança.

Tomo banho nas águas do seu rio
e, a brincar e correr, me demasio
por suas ruas planas e ladeiras

de chão sem calçamento (do passado),
na sensação de estar sendo levado
à infância que, feliz, tive em Pedreiras!
________

H A I C A I S

EM TUA AUSÊNCIA
Não cabem os ais
da saudade que me invade
em dez mil haicais.
________

CONSTATAÇÃO
Eu já não consigo
ter no sexo prazer,
se não for contigo.
________

VAZIO
Foi o que senti
no desprazer de viver
uns dias sem ti.
________

ACEITAÇÃO
Eu te amar assim:
envolvida numa vida
não só para mim.
________


(Imagem com partilhada do Google) 


SOBRE FLORES E BORBOLETAS

Ao poeta José Chagas (in memoriam)

Nem todos são capazes
de perceber o encanto das flores,
embora sejam elas eloquentes
no silêncio em que se mostram vida,
em grande variação
de formas, cores e aromas.

Certa vez, já faz bom tempo,
eu ouvi de um poeta
que são as borboletas
as maiores fãs das flores,
que no bater das asas
as borboletas aplaudem as flores
e que quando pousam sobre elas,
não lhes pesam nem as ferem,
querendo apenas ser parte
de um cenário que fascine
e que provoque estesia...

Foi por eu estar pensando
nesse saudoso poeta
que flores e borboletas
invadiram minha mente,
numa espécie de cobrança
do meu reconhecimento
de que são admiradas,
por quem é sensível ao Belo,
em vida na natureza,
ou quando tornadas
expressão de arte
a caneta ou pincel.
________

AMAR A DOIS

Se acaso o amor a dois
Precisasse de razões,
Essas não seriam mais
Do que razões sem razão,
Apenas de natureza
Cordial, não cerebral.

Pois nesse tipo de amor
Tudo flui naturalmente,
Sem exigir distinção
Ou noção de certo e errado
Naquilo que se deseja
E no que a dois se pratica.

Amar a dois é o jeito
Recíproco e espontâneo
De o casal nisso envolvido
Equilibrar diferenças
Numa mesma corda bamba
Sem perceber que o faz...
________

SÓ PARA NÓS

Já tentamos exercer o direito
de nos separarmos,
mas parece que Deus nos impõe
o dever de estarmos juntos.

É como se tivéssemos sido feitos
de argila da mesma fonte
para marcar em nós a evidência
de insonte e permanente ligação,
por força da mesma matéria prima
com que fomos esculpidos.

Em relação ao nosso amor,
tornamo-nos o côncavo e o convexo
de encaixe perfeito
sem excesso e sem falta....

Números iguais, de sinais contrários,
que não se anulam na adição,
mas formam outro de valor quase infinito,
numa escala de prazer
que vai da ternura dos ingênuos namoros
à luxúria dos loucos amasios...

Não há o que discutir
sobre que de recíproca atração
é que o amor se manifesta,
mas no nosso caso,
chegou fortuitamente,
instalou-se sem pedir licença,
e tudo indica, já veio concebido
de maneira a servir só para nós,
que no jeito de amar somos iguais...
________

PREVISÍVEL DESFECHO

Sem ter por ideal vida futura,
os dois nos entregamos simplesmente
no intuito de recíproca ventura
em forma de prazeres, no presente.

De minha parte, dei-me com loucura
à bela relação que houve entre a gente,
na qual pequeno gesto de ternura
findava em conjunção carnal ardente.

Tive por ela uma paixão sem par;
porém, da parte dela, eu já previa,
mesmo lhe tenha sido prazeroso,

que tudo fatalmente ia acabar,
ao sentir que foi mera fantasia
que a pusera nos braços de um idoso.
________

Abraços aos leitores, com sinceros agradecimentos.

                                            Kleber Lago
 © Kleber Cantanhede Lago