segunda-feira, 29 de setembro de 2014

TRÊS MOMENTOS




O POETA E O RIO

A despeito do leito assoreado
e ameaçado de ficar vazio,
eu – que muito vivi esse meu rio –
cultuo-o, como um símbolo sagrado.

Sinto o meu Mearim acabrunhado,
mas quando o vejo em seu correr macio,
entro em êxtase e rápido o recrio
do jeito como o via em meu passado.

E se o luar reluz na água barrenta,
trêmula ao sopro de noturna brisa,
a cena de beleza me arrebata

a alma e a joga na corrente lenta,
causando-lhe a ilusão de que desliza
por uma esteira líquida de prata!...



 
{Imagem compartilhada do Google)


DESEJOS DE POETA

Quero ouvir do silêncio a sinfonia,
a cor das cores distinguir no escuro
e encontrar na poética magia
a inocência e a bondade que procuro.

Quero falar apenas de alegria
que abrande corações, mesmo o mais duro,
e consiga aquecer toda alma fria
quanto filtrar da vida o que há de impuro.

Que eu flutue, mas não saiba o porquê
de estar sempre a buscar o que é bonito
em voos, Leste a Oeste ou Norte a Sul!

E nunca perca essa ilusão de que
é o Céu que vejo, olhando o Infinito,
e de que o Céu tem, mesmo, cor azul!...


 




     P R O V A

Cheguem-me aos olhos
as cores da beleza
que ainda não pude admirar,
aos ouvidos os sons musicais
que ainda não fui capaz de ouvir,
ao coração as paixões
que ainda não experimentei!...

Venha a voz da consciência
romper o silêncio
acerca de mistérios e segredos,
que se existem escondidos
sob minhas sombras,
ainda não me foram
revelados!...

Por um instante apenas,
queria fazer o que ainda não fiz,
ser o que ainda não fui,
ter o que ainda não tive,
só para observar
o meu comportamento
nessas condições.

Eu disporia, assim,
de um jeito de saber
se realmente sou sincero,
quando dedico versos de amor
a quem digo que amo,
peço perdão pelos meus erros,
perdoo aos que me fazem mal
e afirmo que vivo sempre
em estado perene de reprodução
de sentimentos bons
que cultivo em minha alma...

 
                          Grande abraço aos leitores!

                                                                  Kleber Lago

 
© Direitos reservados ao autor.
 


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

AMAR E ESCREVER - Postagem Final




Com a presente postagem termina a publicação do meu livro Amar e Escrever neste blog. Assim, promessa feita, promessa cumprida.
 

 
EU... ANO VELHO... ANO NOVO
 
 
 
Nunca gasto meu tempo em fazer conta
do que vivi, do que viver me resta;
e enquanto vivo, nada me amedronta,
embora a idade já me franza a testa.
 
A certeza da morte não me afronta,
o vírus da tristeza não me infesta,
porque bem sei manter minh’alma pronta
para viver quanto morrer em festa.
 
Sempre que um Ano Velho chega ao fim,
posso até não louvá-lo, mas também
não digo que me trouxe algo ruim.
 
E acolho com sorrisos de prazer
o Ano Novo, pois quando ele vem,
eu sinto em mim a vida renascer!
 
 
 
 
NAVEGANTE DO PRESENTE
 
 
 
O sorriso no rosto fez-se marca;
humildade e amor, o passaporte
de quem (feliz) a cada dia embarca
na nau da vida, ao bel prazer da sorte.
 
Assim, vejo que nada me demarca
o espaço a navegar, e alheio a norte,
deixo singrar as ondas minha barca,
sem nunca cogitar onde eu aporte.
 
Lembro o antes e penso no depois,
mas só navego em águas do presente,
com alegria, indiferente a planos.
 
E, já no curso dos setenta e dois,
ainda me sinto moço e consciente
de que não temo a dor e os desenganos!
 
 
 
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NAVEGANTE DO PRESENTE
 
 
 
O sorriso no rosto fez-se marca;
humildade e amor, o passaporte
de quem (feliz) a cada dia embarca
na nau da vida, ao bel prazer da sorte.
 
Assim, vejo que nada me demarca
o espaço a navegar, e alheio a norte,
deixo singrar as ondas minha barca,
sem nunca cogitar onde eu aporte.
 
Lembro o antes e penso no depois,
mas só navego em águas do presente,
com alegria, indiferente a planos.
 
E, já no curso dos setenta e dois,
ainda me sinto moço e consciente
de que não temo a dor e os desenganos!
 
 
 
 
       REALIZAÇÃO
 
Eu te encontrei, não sei se por acaso,
mas logo me encantei contigo,
quando eu já tendia a desistir
da busca por alguém
com quem compartilhar
verdades e mentiras,
ternuras e loucuras,
carinhos e arranhões,
erros e perdões
e tudo mais que flui da comunhão
do homem e da mulher,
na vivência do amor.
 
Entrei em tua vida,
não para visitar-te apenas;
sim, para fincar minha bandeira
na terra rubra de teu coração
e com tua cumplicidade
disfarçada em “nãos”
que eu entendia “sins”,
fixar-me, isso mesmo,
ficar permanentemente dentro dele
e dar-te sempre razões
para que o ouvisses bater de satisfeito
por eu tê-lo ocupado.
 
Era a única realização
que me faltava,
pois quando saí
em busca da mulher ideal,
que se materializou em ti,
deixei sepultados
no lugar de onde vim
todos os meus projetos
de conquistas amorosas,
exceto este, cujo objetivo
já posso declarar
plenamente alcançado.
 
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SEGREDO
 
 
 
Relendo as Quadras para os (meus) Setenta,
a releitura satisfaz-me, pois
o dito ali ainda se sustenta
em meu espírito, aos setenta e dois.
 
Ao ver que o gosto pela vida aumenta,
neste agora, que lá era o depois,
já penso em festejar os meus noventa,
com as bênçãos que Deus sobre mim pôs.
 
O meu segredo de felicidade
é ser, de fato, como me apresento:
sincero, alegre, humilde e sem vaidade.
 
E também (se a falar com Deus estou), 
POR POUCO TER – nunca fazer lamento,
mas sempre agradecer – PELO QUE SOU.
 
 
 
 
SE NÃO FOSSE ASSIM...
 
Desde que tomei ciência
de que já tinha razão,
eu jamais alimentei
ambições materiais
nem dei guarida a vaidades.
 
Se divirjo do padrão
o culpado não sou eu;
foi por decisão de Deus
que cheguei, predestinado
a ser assim deste jeito:
 
– tipo simples, que amizade
só sabe dar por inteiro,
e que em suas relações
sempre põe a lealdade
acima de tudo mais;
 
– maluco que, por amor,
fica são e não faria
a loucura de trocar
um segundo de ternura
por mil fardos de dinheiro;
 
– garimpeiro e lapidário
que encontra e trabalha o belo,
dando-lhe expressões verbais,
cuja paga (desejada)
seja causar emoções.
 
Se assim não fosse, eu não sei
o que seria de mim,
sem amar, sem ser amigo,
sem repartir a poesia
de ser do jeito que sou...
 
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   DANÇANDO A VIDA
 
 
 
A vida causa-me um prazer sem fim,
como uma dança, na qual me libero
de todo preconceito e não pondero
sobre se é boa a música, ou ruim.
 
Dançar é algo que me encanta! Assim,
eu vou dançando a vida como quero,
em ritmo de samba ou de bolero,
e sem pensar no que digam de mim.
 
Frequento igrejas, faço farra em bares,
levo conforto a almas desvalidas,
pratico o bem, cometo meus pecados...
 
E sei que pelos críticos olhares
virtudes podem não ser percebidas,
mas defeitos serão sempre notados.
 
 
 
 
      A RESPOSTA
 
 
 
Nos encontros que nossa turma faz
para um chopinho em tardes de calor,
os meus verbais excessos em louvor
a Pedreiras viraram triviais.
 
Há nessa confraria um bom rapaz
que, um dia, me pediu para lhe expor
a razão de eu guardar tamanho amor
por uma terra onde não moro mais.
 
Só que o moço ficou meio sem jeito
quando eu, apontando para o peito
e expressando emoção, lhe respondi:
 
– É verdade que já não moro lá,
porém minha Pedreiras sempre está
dentro de mim, morando bem aqui!
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UM QUADRO DA INFÂNCIA
 
 
 
Sem mostrar resistência a essa vontade
de visitar os tempos de criança,
ponho na mão meu livro de saudade
e folheio lembrança por lembrança.
 
O olhar de minha mente assim me invade
a infância por inteiro, e logo alcança
uma linda menina da cidade,
loura, de olhos azuis e fala mansa.
 
Foi ela, certo dia, sol já posto,
que, após eu mal pisar sua calçada,
parou-me, com as mãos prendeu-me o rosto,
 
esfregou sua boca em minha boca,
e  em seguida, saiu em disparada
para dentro de casa, como louca...
 
 
 
 
INUSITADA VONTADE
 
 
 
Vou passar um dia inteiro
sem pensar em versos
e sem compor um único poema.
 
A razão para isso
foi uma inusitada vontade,
que amanheceu comigo,
de ser egoísta
pelo menos uma vez,
para saber como me sentirei
sem revelar
e sem repartir com os outros
a poesia com que procuro viver
todos os instantes
de cada dia de vida.
 
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      FELIZ DEMAIS
 
 
 
Guardo por minha vida boa e amena
um grande amor, e sinto a toda hora
que, enquanto o amor me alegra e revigora,
pensamento ruim não me envenena.
 
Sei aceitar de forma bem serena
mesmo o que chegue e logo vá embora;
assim, posso afirmar que até agora
tudo o que já vivi valeu a pena.
 
Tenho o pouco que quero, durmo em paz,
sempre no estado de feliz demais,
na lide, entre os amigos e no lar.
 
E só me aventaria desagrado
se porventura eu não tivesse achado
tanta gente no mundo para amar.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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  SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA
 
Kleber Cantanhede Lago (21/2/1942, Pedreiras- MA). Contador, professor e servidor público federal. Pais: Raimundo de Carvalho Lago e Maria Cantanhede Lago, Irmãos: José, Aécio, Maria das Graças, Maria do Carmo, Carlos Rômulo (†), Maria Angélica (†) e Maria Elisa.
 
Domicílios no curso da vida: Pedreiras-MA (até 1960 e 1964/1975), Rio de Janeiro-RJ (1960/1964 e 1975/1982), Teresina-PI (1982/1991), São Luís-Ma (a partir de 1991).
 
Exercício do Magistério (Língua Portuguesa): Ginásio Corrêa de Araújo (Pedreiras-MA), Escola Normal Messias Filho (Pedreiras-MA) e Instituto Dom Barreto (Teresina-PI).
 
Exercício de Cargos e Funções: Dirigente Municipal da CNEC, Vereador, Secretário Municipal, Presidente da Academia Pedreirense de Letras (Pedreiras-MA), Coordenador do Núcleo de Apoio Gerencial e Diretor do Departamento de Convênios da UFMA (São Luís-MA).
 
Títulos e Honrarias: Amigo da Universidade da Terceira Idade -UNITI, Comenda Corrêa de Araújo – Câmara  Municipal de Pedeiras-MA e Honra ao Mérito - Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão.
 
Bibliografia (trabalhos publicados): Pedreiras (1970, 2ª ed. 1988), Palavras (1988), Da Cidade e do Rio (2006), Louvação a Pedreiras (2006, 2ª ed. 2007), Um Pouco de cada Momento (2006), Caderno de Sonetos (2007), Os Loucos de Minha Terra (2007) Água e Pedra (2008), Tempo e Distância (2008), Palavras e Outros Poemas (2009), Da Cidade, da Pedra e do Rio (2009), Deixem tudo como está (2009), Reprodução Gráfica da Palestra “A produção literária e outras manifestações culturais em solo pedreirense” (2010), Sonetos que não estão no Caderno (2010), Menções, Cantos e Louvores (2011), Quadras para os Setenta, Haicais e Trovas Soltas (2011), Outros Momentos (2013), Amar e Escrever (2014).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
KCL
Composto, impresso e encadernado pelo autor
São Luís-MA
E-mail: kleberlago@yahoo.com.br
 
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Deixo meus agradecimentos a todos que me prestigiam com a leitura dos meus escritos.

Kleber Lago

 

© Todos os direitos reservados ao autor.

 

 
Lago, Kleber
Amar e Escrever / Kleber Cantanhede Lago. São Luís: KCL, 2014
116 p.; 20 cm.
 
 1. Poesia Maranhense 2. Literatura Maranhense. I. Título.
 
CDD 869.081 211
CDU 869.0 (812.1)-1