domingo, 10 de março de 2013

POEMAS DAS ÚLTIMAS COLHEITAS II

(Imagem: pedrasverdes)
 
MEARIM
 
Eis aí um rio
Tão cheio de encanto,
De correr macio
Doce de se ver.
Nele quem vier
Buscar o lazer
Fartar-se-á de tanto
Entretenimento.
Porém, quem fizer
Da água do seu leito
Fonte de alimento,
Vá pescar, e deixe...
Pois que, com certeza,
Verá satisfeito
Que na sua mesa
Sempre haverá peixe.
Basta ter cuidado,
Ser muito zeloso
Com a coisa nossa,
Para que assim
Nosso Mearim,
Tão ameçado,
Preservar-se possa
Belo e dadivoso.
 
Como não me sento com determinaçao específica para escrever, e o faço despretensiosamente apenas quando  encontro um motivo qualquer que me inspire a fazê-lo, eu não me dei conta do quanto escrevi, em quantidade de poemas, desde a publicação do meu útimo livro. Assim, na postagem anterior, com o título de Poemas das Últimas Colheitas I, reuni alguns dos meus útimos escritos em verso, prometendo continuar a mostra em outra postagem com o mesmo título. É o que estrou fazendo, mas uma visita aos meus arquivos me indica que serei forçado a deixar muitos poemas a espera de sua vez, em outras postagens que virão depois desta.
 
 
SE TE FALTA O SORRISO
 
Se me abres um sorriso.
isso me leva a sentir-te
como um botão que eclode
e se faz rosa.
 
Se te manténs
sorrindo para mim,
eu te imagino
rosa imarcescível.
 
Mas se o sorriso
some do teu rosto,
parece-me ver murcharem
as pétalas macias
de minha rosa predileta
e senti-las caírem,
uma a uma, pesadamente,
sobre minha alma
que aos pouco vai morrendo,
da provável tristeza
que te levou o sorriso...
 
 
NEM IMORAL, NEM IMPURO
 
Misturar o doce de teus lábios
ao sabor salgado
do suor que brota
dos poros de teu pescoço,
em gotículas quase imperceptíveis!...           
 
Acariciar-te os seios túmidos
e fazer teu corpo inteiro
vibrar de desejo,
a exalar o cheiro natural
de fêmea no cio!...
 
Sentir tuas unhas
arranhando com suavidade
a pele de minhas costas,
à medida que nos damos
à busca recíproca desse tipo de prazer,
não inventado por nós
e que nada tem de imoral e impuro,
por ser apenas o que de mais agradável
Deus nos concedeu, para a satisfação
desse nosso pedaço de criatura humana
concebido carne!
 
 
 
RISO E CHORO
 
São reações opostas que a pessoa
pode sentir, de forma até serena,
conciliando a hora e a vez que em cena
deve entrar cada uma, numa boa.
 
Pois, no comum, juntá-las só destoa
a cena, e tudo então se desengrena,
prova de que nem sempre vale a pena
rir e chorar ao mesmo tempo, à toa.
 
O sorriso reflete o estar contente;
o choro, a dor. Contudo, há um instante
em que esse oposto não se evidencia.
 
E isso acontece apenas quando a gente
viive uma experiência fascinante,
em que sorri e chora de alegria!
 
 
 
 
O PASSAPORTE
 
Só tinha o Sebastião,
Além da vida e do nome,
Uma redinha, uma bilha,
E um mau cheiro de virilha,
Causado por comichão
Do tipo que nunca some.
Quando a rede se rasgou,
Passou a dormir no chão;
Quando a bilha se quebrou,
Juntou sede à sua fome...
Então, ele foi embora
Para o céu, porém na hora
Em que chegou à entrada,
Pela doce voz divina
Teve a passagem barrada:
Para entrar, vás ter primeiro
De passar o dia inteiro
Banhando naquela tina
Até que saia o mau cheiro.
 
 
POVO
 
 
Não quero o palco,
Sim a plateia...
 
Ser um simples anônimo
Misturado à multidão
Que aplaude ou vaia
As estrelas em busca de luz,
Que sabe dizer o sim ou o não
Exigido pelo momento...
 
Gosto de me sentir uma peça,
Minúscula, mas ativa,
Dessa máquina poderosa e grande
Que se chama POVO!
 
 
 
 
SONETO DO NOSSO AMOR
 
É raro amor como o do nosso caso,
Mais do que fontes de água num deserto...
Não te achei nem me achaste por acaso,
Foi Deus que nos uniu, disso estou certo.
 
E eu, que dos sonhos já mirava o ocaso,
Meio perdido num caminho incerto,
Ao te encontrar, mesmo com certo atraso,
Logo senti meu sol de novo aberto.
 
Se Deus nos elegeu para compor
Um bom modelo de casal perfeito
Cujo esteio da vida seja o amor,
 
Ele – que tudo pode e tudo sabe –
Pelo bem que nos quer, vai dar seu jeito
De não deixar que o nosso amor se acabe.
 
 
 
QUATRO MOMENTOS
 
Ilusão
Foi imaginar que ela
Entendesse o poema mais sincero
E mais intenso em sentimento,
Que fiz em três palavras:
EU TE AMO!
 
Decepção
Foi ouvi-la declamar-me
O mesmo poema,
Friamente adulterado
Por um “NÃO” de gosto amargo,
Entre o pronome e o verbo...
 
Satisfação
Foi quando tu me ouviste,
Puseste ternura na voz
E me repetiste meu poema
Inserindo um “TAMBÉM” de doce tom,
Em seu final.
 
Felicidade
É hoje perceber sinceridade
E prazer que não cansa,
Na repetitiva reciprocidade
De nós dois nos declamando o velho poema
Em nosso dia a dia.
 
 
BUQUÊS
 
Aos poucos vão murchando as rosas
Do buquê que não te dei, por timidez.
A cada pétala que se desprende e cai,
Sinto que também murcha em mim
Um pedaço da esperança de um dia
Poder ainda criar coragem
De te enviar uma mensagem de amor,
Presa a outro buquê
De rosas vermelhas.
____________
 
CADA PALAVRA EM SEU TEMPO
 
Tudo tem seu tempo certo
Em nosso tempo de vida.
Há, pois, tempo de negar,
Tempo de duvidar,
Tempo de afirmar...
Por isso, use sempre NÃO,
Caso pretenda expor uma recusa,
Para evitar depois
O arrependimento de ter dado aceite
A algo indesejado.
Nunca tente, também,
Esconder num TALVEZ
A intenção de um SIM
Para não vir a lamentar
Ter sentido medo
Num instante que pedia
Afirmação.
 
 
 
SORRISO
 
Durante minha humana travessia,
tenho mostrado ao mundo meu sorriso,
sem precisar tocar o menor guizo
de algum tipo fingido de alegria.
 
Ser triste é algo que não caberia
dentro do mundo que eu idealizo;
por isso, trago em mim e verbalizo
o meu modo de ser, no dia a dia.
 
Cada sorriso que me vem ao rosto
é um poema escrito por minh’alma
para falar do meu contentamento
 
em ser assim e estar vivendo a gosto
uma vida, ora intensa e ora calma,
porém feliz, momento por momento!
 
 
 
SEM ALMA
 
Caso um dia neste mundo
eu venha encontrar alguém
que mastigue fel
para não perceber os bons sabores,
não toque em nada
para não descobrir
sensações e formas pelo tato,
cubra os olhos ao belo visual,
feche os ouvidos aos sons,
tape o nariz aos odores, e...
que não seja capaz de amar
e receber amor,
decerto entenderei
tratar-se (ainda) de pessoa humana,
mas que, em vez de alma, tem em si
uma essência instintiva
de plena ou quase plena
insensibilidade.
 
 
VONTADE EXPRESSA
 
Quando eu morrer,
Pouco importa quantos anos eu tenha,
Peço que me enterrem o corpo
Vestido numa bermuda
E numa camisa “pólo”.
Não se esqueçam de pôr-me, também,
Um boné na cabeça
E de calçar-me os pés
Com um par de sapatilhas macias,
Sem meias.
É como gosto de andar
E como quero que minha alma
Chegue ao céu
Para ouvir São Pedro dizer:
- Entra, garoto, fica à vontade!
Teus amigos te esperam
Para o bate-papo
E a cervejinha gelada.
 
 
Mais uma vez agradeço, com aquele abraço de sempre, a atenção dos leitores a este blog. Muita paz e muita luz a todos!
 
Kleber Lago
 
© Kleber Cantanhede Lago
 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

POEMAS DAS ÚLTIMAS COLHEITAS I

(Foto importada: pulsarinagens.com.br)
 
               Escrevo versos, componho poemas, não faço poesia. A poesia porventura existente em meus poemas colho-a da vida, nas experiências do cotidiano, como sugere o título atribuído a esta nova postagens, que traz alguns poemas que escrevi nos últimos meses e que será continuada na próxima postagem.
 
                                              O  F I L M E
 
É a mesma fita,
A mesma encenação que se repete
No espaço temporal de cada ano...
 
Pela porta da frente,
Entra uma criança despida
Que logo veste os cueiros,
Levanta e sai puxando
Um carrinho de brinquedo
Carregado de esperanças...
E vai crescendo,
Caminhando sempre,
Ora pisando flores,
Ora pisando espinhos,
 
 
Às vezes provando o amargo
Das decepções,
Outras saboreando o doce
Das alegrias,
Na luta para viver (ou sobreviver)
Até o instante de sair
Pela porta dos fundos,
Feito um velhinho
Com um alforje puído às costas,
Do qual se vão derramando
Lembranças dos que se foram
Nas saudades dos que ficaram
Para assistir a uma nova sessão
Do mesmo filme...
                     
                              (Kleber Lago, Outros Momentos)
 
 
   FOI ASSIM QUE CHEGUEI
 
Na vida não andei só entre flores:
Tive meus dias de pisar espinhos,
Amargando, também, meus dissabores
A caminhar por ásperos caminhos.
 
Não reclamei jamais de minhas dores
Nem chorei insucessos que, aos pouquinhos,
Fui superando como os vencedores
Que não temem da luta os torvelinhos.
 
Foi desse jeito que cheguei aqui,
E até momentos de fora da lei
Vivi, por crimes que não cometi.
 
Muitas vezes segui aos tropeções,
Mas com as pedras em que tropecei
Alicercei as minhas construções.
 
                                      (Kleber lago, Outros Momentos)
 
NAVEGAR
 
Diante de mim,
são tantos os mares a navegar.
E eu tenho de fazê-lo
para que não me sinta um solitário da praia,
insensível aos apelos das águas,
incapaz de subir ao barco dos sonhos,
abrir suas velas e me deixar levar
pelos ventos da aventura
a segredos e mistérios
tão provocantes,
quanto os que me oculta
o azul de seus olhos.
                    
                           (Kleber Lago)
_________________
 
TEMPO
 
Não conto o tempo que conta
Esse meu tempo de vida.
Conto, mas noutro sentido,
O que a vida me ensina,
O que aprendo do mundo,
Durante minha jornada
Pelo caminho em que vou.
O tempo que me perdoe
Por não perder o meu tempo
A medir quanto ele dure
Do princípio até o fim.
 
                        (Kleber Lago)
O MAR, O RIO E A POESIA
 
Diante do mar
a sensação que me vem
é de poder, de força, da imensidão
do domínio das águas
sobre este planeta
que o astronauta,
ao vê-lo de cima,
definiu com o uma bela bola
t oda azul...
 
Olhando um pequeno rio,
eu sinto a suavidade
de água mansa a correr
para pagar seu tributo
ao mar imenso,
enquanto ele faz brotar em mim
pequenas fontes
em que tento saciar
minha sede de poesia...
 
Quanto à poesia,
a sensação que ela me causa
é de quanto sou vazio,
ante a plenitude de tudo
que ainda não consigo enxergar...
 
                           (Kleber Lago, Ouros Momentos)
 
A PONTE
 
De cima da ponte
Eu olho o presente
Que a vista alcança,
Volto ao passado
A que lembrança me leva
E enxergo o futuro
Que sonho para minha terra.
 
A ponte é o cordão umbilical
Que continua ligando mãe e filha.
Sobre ela, a dinâmica da vida
No girar de rodas,
No vaivém de passos,
Apressados ou lentos,
De pessoas que caminham
Ou mesmo se arrastam,
Que se encontram e se misturam,
Que se abraçam e se confirmam
Como um único povo,
A buscar horizontes iguais
Em qualquer dos lados
Ligados pela ponte.
 
Por baixo da ponte
Passa um rio de águas mansas,
Motivo de poemas e canções.
Um rio preexistente
Ao nascimento da mãe,
Por conseguinte, ao seu parto...
E me parece um rio ainda feliz,
Que sente mãe e filha unidas
No mesmo amor por ele,
Juntas nos mesmos lamentos
Por vê-lo estreito, raso
E quase despovoado,
Teimando em resistir
À ação dos predadores.
 
                        (Kleber Lago, Outros Momentos)
 
SUBLIMAÇÃO
 
Olhos, boca, mãos,
Tudo em estado de deliciosa loucura,
Ao calor de nossos corpos
Que se entregam e se conjugam,
Que se desmentalizam e se desalmam
Para que o amor nos leve a transcender
A normalidade dos sentidos,
Num turbilhão de prazer
Que tanto dispensa lógica e nexo,
Quanto nos libera de pronunciar
Palavras articuladas,
Porque suspiros e gemidos
Bastam para exprimir
As nossas sensações...
 
                      (Kleber Lago)
 
____________________
 
 
E N Í G M A S
 
Há sempre um dia na vida
em que o homem se vê diante da Esfinge,
a exigir-lhe que desvende
os próprios enigmas,
e vem aquela angústia da busca por ajuda
no Édipo interior que não aparece,
fazendo-se nele um silêncio
que se junta a todos os seus outros silêncios,
sem que nenhum abra a boca
para socorrê-lo,
enquanto o monstro vocifera:
– Decifra-te, ou te devorarei!
 
                               (Kleber Lago,Outros Momentos )
 
BECOS DE SÃO LUÍS
 
Becos, de chão coberto de cantaria
Vinda do outro lado do oceano,
Onde os cumprimentos
Podiam ser trocados das janelas,
E em voz baixa!...
 
Becos que inspiram canções
Sobre um tempo, em cuja lembrança
Não se ouvem sons de motores
Nem de altos falantes,
Mas o "toc-toc" de chamatós,
Os pregões musicados
De vendedores de frutos do mar
E de frutas da Ilha,
E as cantigas de sorveteiros equilibristas
Com suas tinas verdes na cabeça!...
 
Becos que sobem ladeiras em curva,
Que nos cansam os pés,
Mas nos compensam
Com a sombra dos casarões sem calçadas
Que, mesmo em lados opostos,
Quase conseguem se dar as mãos!...
 
Becos em que às vezes me embrenho,
Na busca de encontrar
Fantasmas do muito que ouvi contar
E do pouco que ainda pude ver!..
 
                     (Kleber Lago)
 
...E ASSIM ACONTECEU
  
Não foi preciso
que saísse de minha boca
uma única palavra:
os apelos do meu silêncio
foram mais que suficientes
para que entendesses
o que eu pretendia te dizer
e o que eu realmente desejava,
quando um empalidecer da ousadia
tornou-me inerte e mudo,
diante de ti.
 
E tu me puxaste pelos braços,
fizeste-me sentar sobre tuas coxas
e, apoiando minha cabeça
na concha de uma de tuas mãos,
provocaste a troca daquele beijo,
abrindo todos os caminhos
para um fluxo de carícias mútuas,
em que silenciosos nos deixamos ir
até o estuário de delícias,
onde cada um de nós, um pleno do outro,
sentiu que se quebrou o silêncio do momento
pelo tilintar de sinos tocados por anjos
à luz de explosões imaginárias
de mil estrelas multicoloridas,
só voltando a ser silêncio
para o merecido repouso
de nossos corpos, saciados de prazer,
sobre um monte de lençóis desarrumados...
 
                                  (Kleber Lago)
 
 
POR UM SORRISO
  EM TEU ROSTO
 
Não me tem sido difícil
 Satisfazer teus desejos,
 E faria o impossível
 Por um sorriso em teu rosto.
 Por exemplo, se algum dia
 Tu me pedisses estrelas,
 Eu tenho plena certeza
 De daria meu jeito
 De trazer um bom pedaço
 De céu pra junto de mim.
 Então, dentre as mais brilhantes
 Das estrelas que viessem
 Nesse pedaço de céu,
 Escolheria as mais belas
 Para ofertá-las a ti.
 
                  (Kleber Lago, Outros Momentos)
 
SONHAR
 
É fascinante, mais do que envolvente
poder levar o pensamento além
daquilo que se é, do que se tem,
do que se pode ver diante da gente!...
 
A doce sensação de pôr a mente
livre de toda amarra que a retém
presa à mediocridade que convém
só mesmo a quem não pensa em ir em frente!...
 
Sonhar!... O verbo quanto o ato são
sublimes, mas não deixe, enquanto sonha,
que o encantamento do seu sonho o engrade,
 
pois todo sonho tende a ser em vão,
sempre que o sonhador não se disponha
a transformá-lo numa realidade.
 
                              (Kleber Lago, Outros Momentos)
 
               Mais uma vez agradeço a atenção dos leitores, com um abraço carinhoso.
                                                                                              
                                                                       Kleber Lago
© Kleber Cantanhede Lago