segunda-feira, 10 de setembro de 2012

COMO AS CEREJEIRAS EM FLOR


[Imagem: Google - cerejeiras ipg - apegletras.blogspot.com]


          ■
Um fruto maduro
pendente, precisamente
na linha do muro.
OLDEGAR VIEIRA
         
          ■
Nenhuma alegria
nas flores de vivas cores
sobre a tumba fria.
GIL NUNESMAIA
          
          ■
Passa a mocidade...
e incerto, à frente o deserto
cheio de saudade.
ABEL PEREIRA

Cabe à tríade poética Oldegar Vieira / Gil Nunesmaia / Abel Pereira, conforme venho afirmando repetidas vezes, a maior parte da responsabilidade pelo meu envolvimento com o haicai. E não posso negar que foi algo de que gostei tanto, que embora não de maneira primorosa quanto eles, até hoje não deixo de registrar pensamentos que me vêm à mente, usando esse tipo sintético de poema, num exercício gratuito e prazeroso que só bem me causa à alma.

De outubro de 2011 para cá, já fiz três postagens de haicais: HAIKAI – FASCÍNIO...ENVOLVIMENTO, UM POUCO MAIS DE HAICAIS e HAICAIS PARA SEMPRE. Parece-me que os leitores gostaram, pois as páginas dessas postagens figuram entre as cinco mais visitadas deste blog, o que me incentiva a fazer outras publicações, como forma de expor novas peças desse meu despretensioso artesanato. Eis, pois, mais uma mostra:


MATINAL
   Aurora surgida,
fito o sol e solto o grito
   de bom-dia à vida.

BORBOLETAS EM VOO
   Lá vão, em frescata,
grupos de fadas aladas
   colorindo a mata.

GÊNESIS
   Quando à luz assoma,
a  flor traz (de origem) cor,
.  textura e aroma.
 
O MOCHO
   Em voos noturnos,
passa medo de desgraça,
   com pios soturnos.

QUITAÇÃO
   Tendo tanto afago,
já sou, pelo que te dou,
   satisfeito e pago.

INOCUIDADE
   Uma chuva fina
que lava o chão, mas não cava
   sulcos na colina.

CONVIVÊNCIA
   Rosas e espinhos
vivem perto e em paz convivem,
   como bons vizinhos.

DESATENÇÃO
   Por ser desatento,
deixei ir o que sonhei,
   num sopro de vento.

ANNUNTIATA
   Eis que o galo canta,
e ao quintal chega o sinal
   de que o sol levanta.

NOSSO NAMORO
   Ah! Meus bons momentos
de  primeiro  garimpeiro
      dos teus sentimentos!
ECODESAFIO
   Ver água corrente
com vida e não poluída
   por onde haja gente.

NA ESPLANADA
   Serve-se salada
de sujeira e roubalheira...
   Também “marmelada”.
  
CONTAINERS
   Todos os meus ais,
a meu ver, podem caber
   em poucos haicais.

CONSELHO AOS INFIDOS
   Não rezem, que até
a oração perde a razão
   se é feita sem fé.

FALSO DESINTERESSE
   O olhar que alguém lança,
com desdém, a que ou a quem
   não tem nem alcança.
  
REGISTROS
   Deixo num caderno
assentos dos meus momentos
   de céu e de inferno.

GLADIADOR
   Somente o mais forte
e  ativo  saía  vivo
   do circo da morte.

OTIMISTA
   Das folhas que alcança
tira o verde e clorofila
   a sua esperança.

ESPELHO
  A voz da consciência
visual  do  estado  real
   de nossa aparência.

SIMILARIDADE
   Nas folhas de um galho,
mostram-se iguais a cristais
   as gotas de orvalho.
POETA MEARINENSE
   Sonha enquanto rema.
Malandro, em cada meandro
   plagia um poema...
  
CONFIDÊNCIA
   Se estou só, de pronto
e sem medos, meus segredos
   ao silêncio conto.

OLFATO
   À noite, mal chego
a tal recinto, e já sinto
   cheiro de chamego.

CONDICIONAL
   Qualquer sofrimento,
se for por um grande amor,
   eu juro que aguento.

ARDILEZA
   Nos fios da teia
a aranha ardilosa apanha
   os pratos da ceia.

FIM DE TARDE
   Olhando o arrebol,
dardejo-o com meu desejo
   de bom sono ao sol.

HOMEM COM “H”
   O que ama e assume
que, afora outras coisas, chora
   e sente ciúme.

AZIAGO
   Agosto, já tido
como infausto, ainda se finda
   num 13 invertido.

BUQUÊ DE ROSAS
   A mensagem urdida
que apraz à mulher e a faz
   boba e envaidecida.

SORRIR
   O melhor remédio
para cura de amargura,
   mau humor e tédio.

Como podem notar, mantenho-me fiel ao tipo de estrutura que elegi em 1964, quando, sem a menor intenção de tornar-me um haicaista, enamorei-me do haicai e integrei-me ao grupo de seus amantes. Afirmo, contudo, que minha escolha não guarda nenhuma relação de condenação ou aversão aos que preferiram e preferem liberar-se de amarras no fazer poético e que foram e são capazes de compor haicais melhores e bem mais expressivos. Na verdade, importa é que, independentemente da estrutura em que esteja composto, o haicai elaborado com alma sempre se mostrará lindo, como as cerejeiras em flor da terra de onde veio, e capaz de fazer o leitor se deliciar com o encanto do instante poético traduzido e sintetizado em poucas palavras que podem dizer muito mais do que centenas delas, ditas de outra forma.   

                                                               Kleber Lago






quarta-feira, 29 de agosto de 2012

DOIS MINICONTOS

[Imagem Google - alexfantastico.blogspot.com]

Para a postagem de hoje, escolhi estes dois, entre os minicontos que escrevi num desses poucos momentos em que minha vontade de versejar cede espaço à prosa.
 
 
INVEJA INOCENTE
 
Na manhã daquele domingo, Sílvia soube do grave estado de saúde de Irene. Muito embora suas relações de amizade estivessem limitadas a cumprimentos e pequenas trocas de gentilezas, um impulso levou Sílvia a visitar Irene no hospital, na tarde daquele mesmo domingo. Encontrou-a deitada na cama, olhos fechados, magra, pálida, recebendo oxigênio e tomando soro.
Enquanto Sílvia, ao pé da cama, observava as gotas pingando no pequeno cilindro plástico localizado na parte superior da mangueira ligada à bolsa de soro, em sua mente iam desfilando lembranças dos velhos tempos de escola. Ela, a menina baixinha, franzina, tímida, sem maiores atrativos físicos, mas que sempre tirava as melhores notas da turma. A outra, grande, o corpo de adolescente já mostrando relativa exuberância nos seios e nas nádegas, extrovertida, sempre cercada de meninos, e que só se dirigia a ela com ar de superioridade, sem disfarçar certo olhar de desdém...
Saiu de suas divagações quando a enferma, abrindo os olhos, estendeu-lhe o braço livre do soro, segurou-lhe a mão e lhe falou com voz quase inaudível:
– Obrigada, querida! Fique sabendo que sempre a admirei... Aquela maneira de eu me comportar na escola, compreendi mais tarde, era apenas uma boba manifestação da inveja que eu sentia de você, por ser a melhor aluna da turma...
Sílvia pressionou carinhosamente a mão de Irene, dando-lhe a entender que não guardava nenhuma mágoa daquilo. Mas, no íntimo, sabia que também havia alimentado sentimentos de inveja naquele tempo, sempre que percebia nela a ausência dos atributos que a outra carregava consigo.
 
 
 
UM CASO DE CASAIS

Os dois jovens casais amigos, Márcio/Marília e Paulo/Sandra, moravam no mesmo prédio. No primeiro casal, Marília era quem trabalhava duro para manter a casa, enquanto no segundo acontecia o inverso: Sandra tinha apenas o papel da tradicional dona de casa.
Durante os dias úteis, a vida de cada um desses casais seguia a mesma rotina, quebrada somente nos fins de semana, pelo que já se tornava também uma rotina comum aos dois casais: saídas para um chope num barzinho, para uma manhã de praia ou para visitas a alguns pontos turísticos da cidade.
Coincidentemente, nos últimos meses, estava havendo uma espécie de resfriamento nas relações íntimas, em ambos os casais. E naquela quinta-feira, na repartição pública em que trabalhavam Paulo (marido de Sandra) e Marília (mulher de Márcio), sem que um soubesse da intenção do outro, cada um deles roubou um pedaço de seu turno vespertino de trabalho, arquitetando uma maneira de reaquecer o clima em casa.
À noite, mais ou menos às vinte e uma horas, depois que Paulo e Marília, em cenas paralelas, saíram do banho e adentraram seus respectivos quartos iluminados apenas pela luz dos televisores ligados, cada um deles teve de superar a frustração da expectativa, ao encontrar sua cara metade já entregue ao sono, com uma expressão de satisfação estampada no rosto. Márcio e Sandra, naquele momento, cada qual em seu canto e em sonhos também paralelos, estavam revivendo cenas inesquecíveis das tardes que costumavam passar juntos.
 
 
Mais uma vez agradeço a atenção dos leitores, cujas visitas às páginas deste blog me incentivam cada vez mais a mantê-lo vivo, sem lhe alterar a natureza e sem fugir à finalidade para que foi criado.
 
Kleber Lago

terça-feira, 24 de julho de 2012

DE ARROUBA (de os Loucos de Minha Terra)



Hoje transcrevo, do poema Os Loucos de Minha Terra, o capítulo dedicado a um dos mais queridos personagens que se integraram ao folclore pedreirense. Antes, porém, devo fazer algumas notas de esclarecimento que, decerto, ajudarão o leitor a conhecer melhor um ser humano de alma pura que, fugindo aos padrões de comportamento tidos por normais, conseguiu, por quase três décadas, emprestar mais graça às ruas de nossa cidade, com a inocente espontaneidade de seus arroubos de alegria.
DE ARROUBA – Como era conhecido o ferreiro que também tinha sido lavrador e cujo nome verdadeiro nunca cogitei conhecer. Tal apelido não tem nenhuma relação com ARROBA (peso correspondente a 15 quilos). Inicialmente era DE ARROMBA (termo popular equivalente a grandioso, excelente), mas ele próprio fazia questão de trocar o “m” por um “u”. E, assim, de boca em boca, foi se criando uma espécie de derivação regressiva do verbo ARROUBAR (extasiar, deslumbrar) para assumir definitivamente a forma DE ARROUBA.
GUMERCINDO – Referência a Gumercindo Leandro, à época, gerente local do Armazém Paraíba.
BASE DO CAMELO – O bar de Isolete Camelo, no Bairro Jerusalém (Trizidela).
JOÃO CLAUDINO – Dirigente do Grupo Claudino, ao qual pertence o Armazém Paraíba.
EMBIRIBA – Pequena fava de gosto meio amargoso, utilizada para fazer chá e que se põe em infusão na aguardente, para alterar-lhe o sabor.      

XIII – De Arrouba
 
Tinha sido lavrador
austero e trabalhador.
Só que, ao vir para a cidade,
gostou muito da cachaça
e aprendeu a fazer graça
com certa facilidade.

Conseguia fazer rir
a todos, mas sem ferir
sentimentos de ninguém.
E, por suas brincadeiras,
a cidade de Pedreiras
passou a querer-lhe bem.

Lembro-me de cada passo
da história desse “palhaço”
que, enquanto pinga bebia,
meio artista e meio louco,
ia enchendo pouco a pouco
nossa terra de alegria.

Voltando à primeira vez
em que o vi, na nitidez
da memória posso vê-lo
de novo, quase caindo,
ao lado de Gumercindo,
lá na Base do Camelo.

Gumercindo lhe pagava
uma dose, ele a tomava
e, após a cuspida fora,
dizia: – Alô! Tudo em riba?
Então vá ao Paraíba,
que o baratal tá na hora...

Nascia uma relação
entre a empresa e o beberrão
alegre e meio sem tino
que, sem outro plano em vista,
se tornou “propagandista”
da firma do João Claudino.

Macacão estilizado,
botinas, rosto pintado
e megafone na mão,
De Arrouba, cheio de afã
saía toda manhã
para cumprir a missão.

Da Trizidela ao Engenho,
na ida, um bom desempenho.
Entretanto, quando vinha,
cambaleava e pendia
para os lados, parecia
que a roupa andava sozinha.

Nesse quadro hilariante,
embora cambaleante,
arrotando a embiriba
e já ao sabor do vento,
não parava o só momento
de falar no Paraíba.

Dizem que essa era a razão
de, às vezes, um avião
aterrissar de surpresa
em Pedreiras e levar
De Arrouba para alegrar
algumas festas da empresa.

Ele, assim, de voo em voo,
Sua alegria levou
À Região Tocantina,
A cidades do Munim,
A outras do Mearim
E até mesmo a Teresina.
Porém, somente Pedreiras
tinha as imagens inteiras
das cenas cheias de graça
da história do nosso artista
e grande “propagandista”
movimentado a cachaça.  

Apenas nossa cidade
conheceu toda a bondade
de um ser de índole mansa
que, apesar da embriaguez,
nunca destratou nem fez
mal ou medo a uma criança.

Sua alegria, tão linda!
A pureza mais ainda!
Sem as suas brincadeiras
tudo era triste e, na calma,
ficava um pouco sem alma
a vida em nossa Pedreiras.

Via-se nele, de fato,
fidelíssimo retrato
de alguém que trouxe poesia
de um diferente universo.
Não expressa pelo verso,
mas naquilo que fazia.

De Arrouba viveu bebendo.
Ou melhor, bebeu vivendo
do jeito que sempre quis:
só para fazer sorrir...
Nunca precisou sentir
Se ele próprio era feliz.

[LAGO, Kleber. Os Loucos de minha Terra. São Luís: KCL, 2007]

Aos leitores, os meus agradecimentos pela atenção que têm dispensado a este blog. Até breve!
                                                            Kleber Lago