quarta-feira, 6 de junho de 2018

GOIABAL - Passeio por lembranças e fatos comprováveis de sua história


A lembrança remota mais nítida que tenho do Bairro do Goiabal me remete aos primeiros anos da década de 1950, quando ali ainda morava a família de Eustáquio Nobre, numa grande casa de taipa rebocada e pintada, no alto de uma pequena elevação do terreno, com portas e janelas de frente voltadas para uma área plana onde havia um rústico campinho de futebol que era, também, o local onde costumavam ficar alguns animais de serviço e de montaria, pertencentes á família.
Era uma boa área de terra, toda cercada na parte inicial. Na face da cerca paralela à lateral esquerda da casa havia uma porteira de estacas, que ficava de frente para o final da rua então chamada Cantinho de Baixo. Para além dessa área inicial, sempre limpa e com algumas árvores, espalhava-se o grande goiabal nativo, por onde passava um caminho de roça com aquele fio de chão pisado, pelo qual circulavam pessoas adultas e crianças carregando latas, bacias e baldes cheios de goiabas maduras, de colheita livre e gratuita para as prováveis doceiras da cidade.
Essas lembranças estão ligadas à minha adolescência, quando eu, José Wilson (filho do Chiquinho Sudário), Zacarias Salomão e outros meninos, íamos jogar bola e andar a cavalo com nossos contemporâneos “Marinheiro” e “Nena”, filhos do Senhor Eustáquio.
Depois disso, há um lapso de memória, que coincide justamente com o período em que vim estudar em São Luís, interno no Colégio Marista...
Em 1957, encontrei a família do Senhor Eustáquio morando na Rua Grande, no trecho entre um dos prédios da Companhia Carioca e o “Beco do Carvalhinho”. Fui informado de que o GOIABAL já pertencia à Arquidiocese do Maranhão, do que tive certa confirmação mais tarde, quando, sob a administração do Monsenhor Gerson Nunes Freire, foi reconstruída a cerca de frente, edificado um prédio de alvenaria e substituída a velha porteira de estaca por um portão de madeira lavrada, protegido na parte interior do terreno por um mata-burro, espécie de grade de trilho sobre um fosso, para dificultar a passagem de animais graúdos por ali.
Não descarto a possibilidade de, quanto a este assunto, existirem alguns acontecimentos perdidos em minha mente. Mas me recordo perfeitamente de que, enquanto o Monsenhor Gerson administrou o GOIABAL, ali foi realizada a I Semana Ruralista e de que mais tarde, quando voltei a Pedreiras depois de morar alguns anos no Rio de Janeiro, apliquei a prova de português do exame de admissão ao Ginásio Corrêa de Araújo (pelo Monsenhor dirigido), no prédio onde hoje funciona, salvo engano, o antigo Grupo Escolar Ciro Rego.  
Em verdade, até aqui, venho contando a história do GOIABAL à luz de fatos que minha memória gravou, em decorrência de vivência presencial, mas sem nenhuma prova documental.
Contudo, posso afirmar, como ex-Secretário de Administração no mandato do Prefeito Josélio Carvalho Branco, o que pode ser confirmado nos anais da Câmara e da Prefeitura, que, a exemplo do que ocorrera com o velho prédio adquirido do industrial Dazico Rego pelo Banco do Brasil, desapropriado e em cujo terreno foi construída a Praça Melico Rego, também houve desapropriação da área do GOIABAL, por interesse social.
                                     (Imagem compartilhada)

Então, foi iniciado processo de urbanização da área, com abertura de ruas, edificação de prédios públicos e particulares, bem como marcação dos locais para a futura praça do novo bairro e de espaço que seria destinado à realização de eventos populares, como as festas juninas dos finais da década de 1960, em ambiente que ficou conhecido como “Rasga Sunga”, e as posteriores festas carnavalescas abertas ao público.

 Em se falando em praça, durante a administração de Raimundo Louro, já consolidado o GOIABAL como bairro, a pequena avenida e a praça do bairro foram restauradas, e esta última passou a se chamar Praça Doutor Laguinho, em homenagem ao meu saudoso pai, o odontólogo Raimundo de Carvalho Lago. Não demorou muito, a placa indicativa e a máscara de bronze desapareceram. Um dia, ao passar por lá, percebi isso. Mas não me consternei, embora sabedor de que meu pai merecia a homenagem recebida, in memoriam. Simplesmente procurei entender o acontecido como um “recado” de quem desejava que a praça continuasse a ser chamada pelo nome que recebera do povo depois de inaugurada: PRAÇA DO GOIABAL.

                                                                          Kleber Lago



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Viagens para dentro e fora de mim - postagem final


Esta é a postagem final de textos do livro Viagens para dentro e fora de mim, contendo as páginas 77 a 90. A partir de agora, começarei a fazer a distribuição dos exemplares impressos em papel.

Por oportuno, manifesto os melhores votos de um feliz 2018 aos queridos leitores, com a minha gratidão pelo incentivo à manutenção deste blog, de natureza exclusivamente literária, que fechou o ano com os seguintes registros estatísticos de visitas: Brasil - 62.698; Estados Unidos e Canadá - 11.205; Europa - 6.425; Ásia - 204.


           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim

 CONTEÚDO POEMÁTICO DESTA POSTAGEM

DROGADO
77
TRÊS INSTANTES
78
APENAS POETA
79
À DERIVA
80
PLANTADOR
81
CAMINHANDO SEMPRE
82
A LUZ DO TEU OLHAR
83
RECUSAS
84
O VÍCIO DE VOCÊ
85
AOS PRETENSOS JUÍZES
86
SEQUENCIAL
87
EM BUSCA DO DESTINO
88
SÌNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA DO AUTOR
89





                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          77

               DROGADO

Sempre que pega algum trocado micho,
daqui da rua certas horas some
para comprar a droga que consome,
mas logo volta, feito um homem-bicho.

Nele atua a má sina com capricho:
sob efeito da droga, esquece o nome
e até se serve, quando está com fome,
dos restos de comida que há no lixo.

É simplesmente um ser que subsiste
no curso de uma vida louca, triste,
em que de humano já não restam traços.

E para ele o mundo é algo estranho,
sem sentido, sem forma, e do tamanho
que cabe seu vaivém de poucos passos...




                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          78

TRÊS INSTANTES

Agora,
deves guardar silêncio
e escutar-me simplesmente;
deixar-me dizer-te
tudo o que te omiti
sobre meus pensamentos,
palavras e atos
de que não foras o alvo;
permitir-me revelar-te
todas as minhas mentiras,
fingimentos e traições
ao longo desses anos.

Depois,
será a tua vez
de livremente me fazeres
as tuas confissões,
a que ficarei atento,
sem buscar razões
e sem questionamentos.

Mais tarde,
deveremos considerar
o que nos dissemos
e, vestidos de sensatez,
despidos de rancor e mágoa,
teremos de decidir
entre duas opções:
– ou nos perdoarmos mutuamente
num abraço de reenlace;
– ou virarmos as costas um ao outro
para o começo de um caminhar
em direções opostas...


                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          79

 APENAS POETA

Se a Poesia me inspira o amor por tema,
sigo um hábito meu, já muito antigo:
torno-me personagem de um poema,
e conter meus impulsos não consigo.

Assim, versejo sem prender-me à algema
da censura e sem ver qualquer perigo
de provocar um conjugal problema
que afete tua relação comigo.

Sou só poeta, não quero desfeita
nossa união, quando a escrever me excedo,
nem que vivas em clima de suspeita.

Por não ferir-te, se eu buscasse acesso
a novo amor, faria isso em segredo;
e o que faço em segredo não confesso.



                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          80

 À DERIVA


Não é que eu seja mau velejador,
sou apenas desleixado
e não posso velejar sozinho,
sem te ter por bússola
a indicar o meu norte
e por luz que não me deixe
desviar de rumo.

Por um impulso fui levado
a navegar por mar desconhecido
sem a tua companhia,
e simplesmente paguei
pela minha imprudência:
tombou o mastro sob a ventania
e o leme espatifou-se nos abrolhos.

Num barco à deriva,
sem vela e sem leme,
é como me sinto agora
não te tendo comigo...


                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          81

           PLANTADOR


Fiz-me ativista e dediquei-me a planos
com vistas a lutar pela melhora
das condições de meus irmãos humanos,
contra os quais a injustiça inda vigora.

Até bem perto dos sessenta anos,
não fui quieto como estou agora,
e usei, às vezes, métodos insanos
para espalhar ideias vida a fora.

Fui um cultivador de sonhos, sim;
enquanto o fui, mostrei a muita gente
como plantar sementes de esperança.

Sei que colhi bem pouco para mim,
mas vendo os que ensinei, fico contente
com cada um que melhor safra alcança.





                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          82

                         CAMINHANDO SEMPRE

Foram muitas caminhadas         Ao ir aonde não fui,
pelas estradas da vida,               já não busco fama ou glória:
e hoje, com setenta e três,         sim, tomar novas lições,
respeitados meus limites,           colher mais conhecimento
ainda solto meus passos,           para pôr em meus vazios
de volta a chãos já pisados        que, quanto mais eu preencho,
ou rumo aonde não fui.               maiores ficam em mim.

O caminhar pela vida
vale a pena para o homem
enquanto a alma o deseje,
e pouco importa que o corpo,
sentindo o peso dos anos,
só lhe permita fazê-lo
devagar, a passos lentos...

Continuo a caminhar,
feliz, descomprometido
com vaidades e ambições,
deixando o vento levar-me
aonde queira o pensamento,
para refazer percursos
ou descobrir novas trilhas.

De volta a chãos já pisados
por mim, revejo as vitórias,
como também os fracassos
que tive e que me ensinaram
a corrigir certos erros
e a criar boa estratégia
para aplicar noutra luta.


                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          83

    A LUZ DO TEU OLHAR


Sempre que a terna luz do teu olhar
atinge os olhos meus suavemente,
experimento uma emoção sem par,
em meio a tantas que minh’alma sente.

Um tipo de emoção tão singular,
que me invade de um jeito diferente,
tornando-me capaz de levitar,
em êxtase, de tudo mais ausente!...

Às vezes, tento descobrir a cor
com que a luz dos teus olhos me irradia
igual fascínio. Então, fico a supor

uma composição que o Criador
fez das cores do Sonho e da Poesia,
para pôr nessa luz a cor do amor.



                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          84

            RECUSAS


Ontem te convidei para um passeio,
porém tu recusaste o meu convite,
e na desculpa que me deste, veio
a alegação de crise de rinite.

Hoje vou te propor um dia cheio
de carinho e prazeres, sem limite,
mas estou, em verdade, com receio
de que me alegues uma encefalite.

Cada vez que me negas teu carinho
toda a alegria de minh’alma some,
e então me sinto como um bebezinho

que se contorce dentro do seu leito
e em pranto denuncia a dor da fome,
enquanto a mãe fica a negar-lhe o peito.



                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          85

       
           O VÍCIO DE VOCÊ


Sinceramente, sinto-me um menino
sempre que com você, tardes inteiras,
envolvo-me em adultas brincadeiras
em que demonstro quanto sou “malino”.

Você cai em gostoso desatino,
sob o calor de lúbricas fogueiras
que acendo, a explorar de mil maneiras
as curvas do seu corpo pequenino.

... Penso em abdicar a certos vícios
que já se me tornaram de rotina,
embora isso me custe sacrifícios.

Mas não incluo aí aquele que
é, entre todos, o que mais domina
minha vontade: O VÍCIO DE VOCÊ!







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AOS PRETENSOS JUÍZES

Situações me acontecem
de maneira inusitada,
e não me resta, senão
nelas deixar-me envolver
sem qualquer questionamento
quanto a se certas, ou não.

Vou me deixando levar
pelos ventos da emoção;
vivo-as e as procuro ver
como sendo naturais,
enquanto me fazem bem,
enquanto me dão prazer.

Quem acha que estou errado
mostre-me quem nunca errou,
ou então me ensine um jeito
de evitar que as doces setas
atiradas por Cupido
venham cravar-se em meu peito.

Sou um simples ser humano,
posso até ter alma forte,
mas “a carne é fraca”... Assim,
quando erro por amor,
dou “bananas” a quem queira
fazer-se juiz de mim!


                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          87

                               SEQUENCIAL

O magnetismo das trocas de olhares,              A paixão,       
os toques "involuntários" de mãos,                   paixão que faz doer,
a convergência de desejos parecidos,             as primeiras feridas,
a eclosão do beijo não programado,                paixão que faz lembrar,
o abraço ativador                                              paixão que dá saudade,
da química natural                                            paixão que faz o "caedere"
em que se tornam mistura perfeita                   virar "cida" em nossa língua,
sensações e emoções compatíveis...               às vezes junto com "homo"
                                                                          e outras vezes, com "sui"...
A descoberta do amor,
o sonho da "vie en rose"                                   Pelas minhas
a fluir pelos canais                                            não mato,
das mentes fascinadas,                                    não me mato,
o compartilhamento das mesmas alegrias,      simplesmente me morro...
a realidade dos contatos mais íntimos,
a empolgação das carícias,
o sexo, a luxúria,
o prazer das fusões carnais
na beleza do estar juntos...

Os problemas do cotidiano,
os primeiros arranhões,
as primeiras feridas,
os primeiros sinais de desafeto,
o azinavre nos conectores da relação,
a queda de intensidade
na corrente do amor,
as crises,
o desenlace...


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 EM BUSCA DO DESTINO

Há muito tempo vivo além do muro
que me prendia a mim e a tudo quanto
me inspirava limites, entretanto
meu horizonte ainda é quase escuro.

Tenho me dado a esse trabalho duro
de vagar pela vida, canto a canto,
e embora tenha viajado tanto,
não consegui achar o que procuro.

Mas, quando venho de qualquer jornada,
logo depois que tiro os pés da estrada,
limpando todo o pó, me determino

a não parar, e me encho de coragem
para o começo de nova viagem
em busca de chegar ao meu destino.


                           Kleber Lago - Viagens para dentro e fora de mim          89

 SÍNTESE BIOBIBLIOGRÁFICA DO AUTOR

KLEBER CANTANHEDE LAGO (21/2/1942, Pedreiras - MA). Contador, professor e servidor público federal.

DOMICÍLIOS NO CURSO DA VIDA: Pedreiras - MA, até 1960 e de 1964 a 1975; Rio de Janeiro - RJ, de 1960 a 1964 e de 1975 a 1982; Teresina - PI, de 1982 a 1991; São Luís - MA, a partir de 1991.

EXERCÍCIO DO MAGISTÉRIO: (Língua Portuguesa): Ginásio Corrêa de Araújo e Escola Normal Messias Filho (Pedreiras - MA) e Instituto Dom Barreto (Teresina - PI).

VÍNCULO COM ENTIDADES LITERÁRIAS: Membro fundador da Academia Pedreirense de Letras e membro efetivo da Academia Poética Brasileira.

CARGOS E FUNÇÕES: Dirigente Municipal da CNEC, Secretário Municipal de Administração, Vereador, Presidente da Academia Pedreirense de Letras (Pedreiras - MA); Coordenador do Núcleo de Apoio Gerencial, Diretor do Departamento de Convênios, Assessor Especial do Reitor, Assessor junto à Pró-Reitoria de Gestão e Finanças (Universidade Federal do Maranhão, São Luís - MA).

TÍTULOS E HONRARIAS: Amigo da Universidade da Terceira Idade - UNITI; Comenda Corrêa de Araújo - Câmara Municipal de Pedreiras; Honra ao Mérito - Secretaria de Estado da Cultura do Maranhão.

BIBLIOGRAFIA
Livros: Pedreiras (1970, 2ª ed. 1988), Palavras (1988), Da Cidade e do Rio (2006), Louvação a Pedreiras (2006, 2ª ed. 2007), Um Pouco de Cada Momento (2006), Caderno de Sonetos (2007), Os Loucos de Minha Terra (2007), Água e Pedra (2008), Tempo e Distância (2008), Palavras e Outros Poemas (2009), Da Cidade, da Pedra e do Rio (2009), Deixem tudo como está (2009), Reprodução Gráfica da Palestra “A produção literária e outras manifestações culturais em solo pedreirense” (2010), Sonetos que não estão no Caderno (2010), Menções, Cantos e Louvores (2011), Quadras para os Setenta, Haicais e Trovas Soltas (2011), Outros Momentos (2013), Amar e Escrever (2014), Viagens para dentro e fora de mim (2017).
Publicações em blog: kleberlago.blogspot.com 
   

Abraços os queridos leitores com carinho e gratidão.

                                       Kleber Lago
© Kleber Cantanhede Lago