terça-feira, 10 de maio de 2016

Lira de Começo de Ano - 2016




Minha Lira de Começo de Ano – 2016  ficou marcada pela presença da extraordinária sonetista Edir Pina de Barros, que reputo uma das melhores que temos na atualidade. Quanto me foi honrosa a surpresa que tive, no dia 13 de janeiro de 2016, quando ela me dedicou o soneto Eu canto o amor, inspirado em outro (Sempre presente), com o qual eu homenageara a memória de minha primeira esposa, pela passagem do 19º aniversário de sua viagem para a eternidade!

Eu canto o amor
           Edir Pina de barros

O verdadeiro amor jamais fenece
e sobrevive além da eternidade,
enflora sempre em forma de saudade
e mesmo na silente e terna prece.

Jamais em nossa vida se arrefece
o vero amor. E nada um dia há de
quebrar o seu encanto. E na verdade
um grande amor ninguém na vida esquece.

É como o sol, renasce a cada dia
e aquece a nossa alma. É luz, poesia
cantada por graciosos passarinhos.

Por isso eu canto o amor. E canto e canto
para louvar o seu fulgor, encanto
sempre a juncar de versos meus caminhos.

Sempre presente
                      Kleber Lago

Sobre o amor de verdade nutro a crença
de que em nós ele sempre subsiste,
e físicas ausências nos compensa
pelas lembranças com quem nos assiste.

Numa saudade que, apesar de imensa,
não me dói nem me deixa ficar triste,
tens sido para mim uma presença
constante, desde o dia em que partiste.

Pensando em ti, eu nunca estou sozinho,
pois revivo, na mente, cada lance
dos anos de ternura e de carinho.

E até me cheiro... e vou podendo assim,
em minha pele, onde o nariz alcance,
sentir o cheiro do teu corpo em mim.

Fã de carteirinha de Edir e adorador do bom sonetear dos bons sonetistas, costumo visitar a pagina Sonetos de Edir Pina de Barros para deliciar-me na leitura de seus escritos. Numa dessas visitas, encontrei uma foto dela, aos dezenove anos. E, como poeta tem comportamentos que parecem anormais para quem é completamente normal, copiei a foto e colei-a ao lado de uma foto minha, eu também aos dezenove, mas completados muito antes dos dela. Aí, comecei a divagar e coloquei em paralelo as nossas jornadas pelas rotas da Poesia, passando a perceber uma grande afinidade entre nós, acentuadamente no que concerne a sermos, ambos, além de cultores do soneto, cantores do maior, mais belo e mais significativo dos sentimentos humanos: o AMOR. Vejam o soneto que resultou dessa minha divagação:

DOIS CANTORES DO AMOR
                                 Kleber Lago

Bem antes, sim, dos dezenove anos,
cada um de nós dois já se envolvia
nessa doce missão de, entre os humanos,
cantar o Amor nas vozes da Poesia.

Pelos caminhos, em locais urbanos,
no universo real, na fantasia,
vamos cantando o amor e seus arcanos,
como uma obrigação do dia a dia.

Temos alma de pássaro cantor,
e nossas penas, mesmo em tons diversos,
transformam tudo em cânticos de amor,

mas seus acordes só vão alcançar
quem for capaz de, ao ler os nossos versos,
sentir em si quanto é sublime amar.
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E este outro, dentro do mesmo contexto, também dediquei  a Edir, como forma de lhe agradecer o carinho e atenção a mim dispensado por ela:

ASSIM VEJO O AMOR
                            Kleber Lago

Coisas do amor prescindem de argumento,
vão ser sempre ocorrências naturais,
desde o sorriso à exclamação dos ais
provocados por esse sentimento.

Cabe, no amor, qualquer procedimento:
enlaçar, desatar, não querer mais,
juntar de novo... e até o que se faz
só no desejo, sem fruir o intento.

O amor é sentimento singular
que vale, mesmo na presença ausente
de quem conosco está formando par.

E não perde os encantos, a despeito
de o outro lado não mostrar à gente
seu coração vibrar dentro do peito.
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 Imagem do Google

 NUNCA VOU ESQUECER

Ela, com sua magia,
anulava a minha idade
e, em sexo, conseguia
dar-me e ter saciedade.

Não me adianta tentar,
pois nunca vou me esquecer
de quem me fez delirar
em turbilhões de prazer.

A relação teve fim,
mas não se desfez em mim
a paixão pela mulher

que hei de manter como minha
sempre louca "Cabritinha",
enquanto vida eu tiver.
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E POR FALAR EM TEMPO

Não gosto da frase
"O tempo é cruel",
pois o tempo não tem culpa
de passarmos por ele.

Nessa passagem,
entramos num contexto dualista
em que uma das partes é máquina,
e máquinas se desgastam,
estejam paradas ou em movimento.

O tempo não é cruel,
nós é que não sabemos ser fortes
na parte essencial,
e devíamos aprender
a não temer o espelho que reflete
o desgaste da outra parte,
para não termos de andar por aí
culpando o tempo.

Teorias à parte,
tempo é simples noção
que julgamos ou procuramos ter
da duração das ocorrências conosco
e com o que está em volta de nós,
no espaço que ocupamos.

Afinal, temos de dar sentido
às formas que criamos
para contá-lo e medi-lo...
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SÓ QUERIA ENTENDER

Cadê aquela relação bonita
que os dois vivemos de uma forma ardente,
cuja recordação ainda me excita
desejos de vivê-la novamente?!


Não sei como suporto esta desdita
de hoje vê-la mudada totalmente:
estar junto de mim você evita
e, quando está, sempre parece ausente...


A sua frigidez para comigo
faz-me sentir uma tristeza imensa,
e por mais que eu me esforce, não consigo


achar um jeito de entender por que
sou, apesar de sua indiferença,
tão fascinado ainda por você...
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 Imagem do Google

A VERDADE

Era assim:
eu e tu vencendo o chão
de caminhos convergentes
para o encontro de amor,
nosso amor, nosso segredo
de indescritíveis prazeres...

Mas certo dia encontramos,
no ponto de convergência,
cerca bem tecida e alta,
erguida pelo ciúme
de quem já se suspeitava
vítima de traição.

Desde então,
não mais pisamos
aqueles caminhos;
se por medo ou covardia,
isso não sei afirmar.

Verdade
é que nenhum de nós
teve coragem
para a iniciativa
de pular a cerca...
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SEM TEMPO E SEM RAZÃO PARA APRENDER

Se ouço de alguém
que estou com uma expressão triste,
olho dentro de mim e vejo minha alma
a sorrir, feliz por animar alguém
que não deixa prosperar sentimentos ruins
e que não sabe ainda como são as sensações
do que chamam de tristeza.

Na verdade,
nem tenho tempo para aprender,
pois o tempo que me sobra,
fora as horas reservadas ao sono,
eu o divido equitativamente
entre coisas que, em meu entendimento,
só me causam alegria:
o labor pelo pão farto na mesa,
a satisfação dos apelos da carne
e a busca, na realidade ou na fantasia,
por poéticos motivos de emoção
para mim e para os outros.

Acho que não conseguiria aprender
como é ser triste,
mesmo que roubasse e dedicasse a isso
um bom pedaço de cada um
desses pedaços de tempo.

Agora mesmo, enquanto escrevo este poema,
estou sentindo muitas saudades
de alguém que já não está comigo,
mas as saudades se metamorfoseiam
em gostosas lembranças.

Ai, afasto os olhos
do papel dos meus rabiscos
e, mirando-me no espelho
de minhas próprias sensações,
vejo nele o reflexo do meu rosto,
tão sorridente quanto encontrei minha alma,
no instante em que voltei aquele olhar
para dentro de mim...
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 Imagem do Google

O MAIOR E MELHOR DOS MEUS BENS

Tu conheces e aceitas o meu jeito
de ser e de viver. Também conheço
como tu és e, porque assim te aceito,
vamos segundo juntos, sem tropeço.

Do que entre nós se mostra tão perfeito
a reciprocidade é sempre o preço,
enquanto o que me dás eu não rejeito
e recebes o quanto te ofereço.

São poucos os meus bens materiais,
e a eles eu não dou muito valor,
por seu desfrute, às vezes, ser fugaz.

Eis a razão de todo o meu empenho
em gozar, por inteiro, o nosso amor:
o maior e melhor dos bens que eu tenho.
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               Mais uma vez agradeço a atenção dos leitores deste blog. Abraços!

                                                                            Kleber Lago
© Kleber Cantanhede Lago


segunda-feira, 2 de maio de 2016

DA LAVRA DE 2015 - dezembro




Com esta seleção de poemas compostos em dezembro último, encerro as postagens de minha Lavra de 2015.  

PEDREIRAS É ASSIM

Como nos tempos antigos,
aqui ainda se atesta
que todo encontro de amigos
sempre é motivo de festa.

Festa, na qual se comparte,
dentro de um ritmo só,
cerveja, piada, arte,
tripa frita e mocotó!

A foto é no Poliarte,
e nela - exagero à parte -
reside uma grande prova

de que aqui, nesta cidade,
o CALOR vem da amizade,
seja antiga, seja nova!
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ASSIM FUI, SOU E PRETENDO SER

Não projeto mudança neste jeito
com o qual até hoje me contemplo,
longe da pretensão de ser perfeito
ou de que alguém me tome como exemplo.

Não uso muro de lamentações,
a desânimos nunca me abandono
e não faço também reflexões
nas horas reservadas para o sono.

Tal como quando caio me levanto,
se lágrimas me pede alguma dor,
sei muito bem como engolir o pranto.

De azar, má sorte, não lhes temo o cerco,
porque tudo a que dou real valor
sempre recobro em dobro, quando perco.
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SEM CIÚME NEM VETO

Tendo só uma mulher
em minha vida real,
mentirei se não disser
que ela é fenomenal.

Ela, a cada fantasia
de meu pensamento vário,
nomeia o amor que ele cria
para mim, no imaginário.

Já chamou de "A Favorita"
uma que deixei descrita
como amante furacão...

E assim, brincando, não veta
o vaguear de um poeta
pelos céus da inspiração..
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COMPENSANDO A FALTA DE INSPIRAÇÃO

Às vezes um soneto vem do nada;
aflora, assim, da inspiração vazia
e vai se inflando, pouco a pouco, a cada
sensação tradutora de poesia.

Dou-lhe rimas e forma ritmada,
não para demonstrar qualquer mestria,
mas para, na leitura declamada,
não provocar ranhuras na eufonia.

Quando escrevo um soneto "sem motivo"
busco deixá-lo bem elaborado,
por me lembrar instantes em que vivo

sem a menor noção do que fazer,
mas basta que te ponhas a meu lado
que eu encho tais instantes de prazer!
__________
 

DEUS SABE

Traímos nossos pares, sem receio
de perigos, por meses envolvidos
em atos amorosos proibidos,
mas de prazer que, se houve igual, não creio!

E foi algo espontâneo que nos veio
de olhares ternos, logo convertidos
em lascivos desejos incontidos
de um dar-se ao outro, sem limite e freio...

O bom senso tolheu nossos pecados,
mas nenhum de nós dois se achou capaz
de mandar tudo para o esquecimento.

E talvez não sejamos perdoados
porque, se em atos não pecamos mais,
Deus sabe o que se faz em pensamento...
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FELIZ NATAL

Eu queria um Natal
com a harmonia que me transmite
o pequeno presépio
que armo todos os anos em minha casa,
mostrando reis fascinados
ante um Deus-Menino recém-nascido
que entre seus pais terrenos
repousa numa manjedoura,
aquecido pela expiração nasal
de uma vaca e um cordeiro.

Eu queria um Natal
em que os excluídos
não sentissem apenas o cheiro
da ceia com que os abastados
festejam o nascimento de um Cristo
que é de todos.

Eu queria um Natal
em que, além das luzes coloridas
realçando as árvores públicas e privadas,
as pontes e as fachadas dos prédios,
descesse a cada coração
a luz divina do verdadeiro amor
que nos ensinou Aquele,
cujo nascimento vamos festejar.

Eu queria um Natal
em que a troca de presentes
entre os que podem comprá-los
fosse substituída por doces apertos de mãos,
sem qualquer preconceito;
por abraços de bem vestidos e seminus,
numa festa coletiva de todas as raças,
de todos os credos cristãos,
de todos que se acham com o direito
de comemorar o mistério
do Pai que nasceu Filho em carne
para se tornar irmão
de Suas próprias criaturas.

Eu queria um Natal
descomercializado, despaganizado,
um Natal em que os louvores se fizessem em preces,
um Natal em que eu fosse capaz
de multiplicar o peru e o tender da meia-noite
para dividi-los com os moradores de rua
que eu encontrasse pelas calçadas,
a fim de que eles também pudessem ter,
na forma como quase todos concebemos,
o seu FELIZ NATAL.
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UM REPLANTAR DE ESPERANÇAS

Mais um ano que se vai,
sem nada ter-lhe alterado
o amor e dedicação
a quem, hoje, mal aceita
e já não lhe retribui
qualquer gesto de carinho...

Mais um ano dessa busca
pelo beijo que já não se completa,
porque as tentativas acabam congeladas
na frieza dos lábios que se cerram,
em evidente sinal
de não haver reciprocidade de desejo...

Mais um ano dessa convivência
com o permitir-se conjugar-se em carne
com quem já não se despe toda para ele,
recusa as preliminares
e simplesmente lhe entrega um corpo inerte,
estirado na cama,
para que ele trate de procurar sozinho
as sensações do orgasmo
que deveria ser mútuo....

Mais um ano de mentir aos outros
que tudo permanece bem na vida a dois,
quando, em verdade, esse tudo
descambou para a unilateralidade...

Em tal situação,
que já lhe dura bom tempo,
as mudanças comportamentais
têm deixado a relação em desalinho,
mas ele não se desfaz da certeza
de que os dois ainda se amam de verdade
e de que o amor verdadeiro,
mesmo sob a intempérie, não fenece...

E, ao fim de cada um
desses anos anormais,
sem choro e sem lamentos,
do jeito que o faz agora,
mentaliza a incineração das anomalias
e com as cinzas aduba
o canteiro onde replanta a esperança
de tudo se acertar no ANO NOVO.
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"MORRER" PARA RENASCER

Não há tempo ruim. Em qualquer ida
ou vinda, sinto sempre igual frisson
e bebo uma cachaça bem curtida,
se não tenho um bom vinho ou um bourbon.

Alma alegre, feliz, descontraída,
não deixo de afirmar em alto som
que, para quem aprende a amar a vida,
não há um ano que não seja bom.

E, quando o ANO VELHO chega ao fim,
só vendo o bem que ele causou a mim,
ao despedir-me dele, me comovo.

Mas também minha "morte" simbolizo:
passo uns instantes "morto", pois preciso
sentir-me renascer no ANO NOVO.
__________

Agradeço a atenção dos leitores, com um carinhoso abraço!

                                                                            Kleber Lago
© Kleber Cantanhede Lago